O payback, ou período de retorno, é o tempo que a poupança na fatura de eletricidade demora a cobrir o investimento inicial de um sistema fotovoltaico. Pode calcular-se de duas formas: o retorno simples, que ignora o valor do dinheiro no tempo, e o retorno descontado, que aplica uma taxa de desconto e reflete melhor a realidade financeira. Em Portugal, com o regime de autoconsumo, a conta tem uma particularidade: a energia consumida na hora vale muito mais do que a energia injetada na rede.
Os dados necessários
- O investimento inicial (equipamento, instalação, registo da UPAC).
- A produção anual prevista (pode estimá-la com o PVGIS da Comissão Europeia) e o consumo anual da casa ou empresa.
- A taxa de autoconsumo: a parte da produção que é consumida no momento. Numa casa sem baterias costuma andar entre 30% e 60%; numa empresa com consumo diurno pode ser muito maior.
- O preço da energia que deixa de comprar (com taxas e IVA) e o preço de venda do excedente, se tiver contrato com um comercializador.
- A degradação dos módulos (tipicamente 0,4–0,5% por ano), os custos de operação e manutenção, a taxa de desconto e o horizonte de análise (normalmente 25 anos).
As fórmulas
Em autoconsumo, a poupança do ano t soma duas parcelas: a energia autoconsumida, valorizada ao preço de compra, e o excedente injetado, valorizado ao preço de venda (muito mais baixo), ambas ajustadas pela degradação e pela evolução dos preços. O fluxo de caixa é a poupança menos a operação e a manutenção.
Poupançat = Eano·(1−d)t−1 × [a·Pcompra + (1−a)·Pvenda] × (1+r)t−1
Em que a é a taxa de autoconsumo. O retorno simples alcança-se quando o fluxo de caixa acumulado iguala ou supera o investimento; o descontado divide antes o fluxo de cada ano por (1+k)t. O LCOE (custo nivelado da energia) compara o custo por kWh entre projetos e tecnologias.
Um exemplo em euros
Considere uma UPAC de 4 kWp em Lisboa, com investimento de 5.600 €, produção de cerca de 5.800 kWh/ano, taxa de autoconsumo de 50%, preço de compra de 0,20 €/kWh e venda do excedente a 0,05 €/kWh, degradação de 0,5% ao ano, operação e manutenção de 1% do investimento por ano, taxa de desconto de 5% e horizonte de 25 anos. No primeiro ano, a parte autoconsumida poupa 2.900 kWh × 0,20 € = 580 €, o excedente rende 2.900 kWh × 0,05 € = 145 €, e o fluxo de caixa fica em cerca de 669 € depois de 56 € de manutenção. O retorno simples chega por volta do oitavo ano; o descontado chega mais tarde. Note o peso da taxa de autoconsumo: se fosse de 70%, o mesmo sistema renderia cerca de 900 € no primeiro ano. Pode estimar o seu caso na calculadora solar.
Boas práticas e erros comuns
- Use a produção média anual do local, não a dos meses de verão.
- Não valorize toda a produção ao preço de compra: só a energia autoconsumida vale esse preço; o excedente vale o preço de venda contratado (ou nada, se não houver contrato).
- Ajuste o tamanho do sistema ao consumo diurno: sobredimensionar aumenta o excedente mal pago e alonga o retorno.
- Inclua a operação e a manutenção, como a limpeza e uma eventual substituição do inversor, e aplique sempre uma taxa de desconto.
Os erros mais comuns são sobrestimar a produção, assumir 100% de autoconsumo, ignorar a degradação ou a evolução dos preços e deixar de fora custos adicionais.
Fórmulas do retorno em autoconsumo
| Cálculo | Fórmula |
|---|---|
| Poupança no ano t | Pₜ = E·(1−d)^(t−1) × [a·P_compra + (1−a)·P_venda] × (1+r)^(t−1) |
| Fluxo de caixa | FCₜ = Pₜ − O&M |
| Retorno simples | ∑ FCᵢ ≥ 0 (com FC₀ = −investimento) |
| Retorno descontado | ∑ FCᵢ / (1+k)ⁱ ≥ 0 |
| LCOE (opcional) | ∑ Custoₜ/(1+k)ᵗ ÷ ∑ Energiaₜ/(1+k)ᵗ |